Sentido de oportunidade

Há talentos inatos nas pessoas. Um deles é o sentido de oportunidade.

Começar o mandato como Ministra das Infraestruturas, Habitação e Ordenamento do Território com uma visita à Ilha do Fogo pareceu-nos uma excelente ideia. Eunice Silva tinha tudo para fazer um brilharete, depois de uma campanha do MpD, muito centrada na erupção do vulcão em 2014 e nos estragos materiais e sociais daí decorrentes. Aguardavam-se as primeiras palavras da Ministra para anunciar medidas para ajudar a população local, em coerência com o prometido na campanha.

E esperava, com fundadas expectativas, o #CaboVerdeSemFiltro e esperava a população de Chã das Caldeiras. Ficámos defraudados.

O que ouvimos, incrédulos, foi que a Ministra e o seu Governo vão acabar com a cesta básica, que tem mantido em modo sobrevivência várias famílias, invocando que é um encargo financeiro muito grande para o Governo. Também a construção de mais 43 quartos foi colocada em suspenso, o que quer dizer, pela nossa experiência, que já não vai acontecer.

A ajuda para uma catástrofe como aquela que se abateu em cima destas nossas gentes não pode ser negada. É desumana. E estamos certos que os cabo-verdianos entrevistados para os tempos de antena do MpD, aquando da campanha eleitoral, voltaram a verter lágrimas quando ouviram Eunice Silva a acabar com os seus sonhos legítimos.

A viagem foi um atestado ao sentido de oportunidade da Ministra. Ou à falta dele, neste caso.

#CaboVerdeSemFiltro

obras das casas na ilha do fogo

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Jobs for the MpD

Pouco dias depois da posse e já está armado o circo mediático das nomeações.

Por um lado, temos a candura de quem nomeia o Governo mais minimalista de sempre, inclusive com a excentricidade de não haver secretários de Estado, uma novidade de quem está longe da prática governativa de um país com as necessidades de Cabo Verde, e que já é notório na gestão do Monte Tchota, onde são precisos homens de Estado com experiência de terreno para acudir à catástrofe ocorrida na semana passada. Mas na fotografia fica bem poupar em governantes. Para depois gastar tudo nos “jobs for the boys”.

Por outro lado, tivemos ontem um passarinho a soprar para a Imprensa ( http://anacao.cv/2016/05/04/indeminizacoes-quadros-especiais-tramados-pela-lei/ ) que os quadros especiais, na sua maioria próximos do PAICV, estão “tramados pela lei”, lei essa que foi aprovada pelo próprio PAICV, o que é contraditório.

. Primeiro, o espírito da lei não é “tramar” ninguém, mas sim estabelecer uma relação justa entre Estado e as pessoas.

. Segundo, a minha interpretação da lei, que sou jurista, não é essa. A minha interpretação é que as pessoas têm direito a seis meses de compensação.

. Terceiro, que sinal é este que damos às pessoas que serviram o país durante anos, sacrificando-se pessoal e profissionalmente em muito casos, e que de um dia para o outro são postas na rua, saindo com uma mão à frente e outra atrás só porque não têm o cartão do partido político do MpD.

Enquanto se cria a confusão mediática sobre os dirigentes e os quadros especiais da administração pública, institutos e empresas públicas, criando na opinião pública uma ideia de actuação dos próprios que não tem aderência à realidade, o novo Governo nomeia para a TACV uma “troika de boys”. A liderá-la José Luís Sá Nogueira, o delegado comercial da TACV no Brasil e que fez carreira como director de hotel no Brasil (!?!?). Experiência nula, na gestão de uma companhia aérea. Não sabemos onde o ministro José Gonçalves foi tirar a “experiência comprovada em processos de reestruturação e privatização de empresas”, pegando nas suas palavras. Resta-nos acreditar que esta escolha dê certo, e que para salvar a TACV não seja preciso despedir metade das pessoas, como se ouve nos corredores do novo poder.

O #CaboVerdeSemFiltro promete continuar atento aos Jobs for the MpD.

José-Luís-Sá-Nogueira